Sento-me na margem quieta
Vendo os centauros passar
Alegres, joviais.
No meu céu não há estrelas,
Nem nuvens,
O azul é apenas
Uma frígida memória.
Hoje não me encanta o
Verde pasmado
Das folhas cruas
Das árvores,
Nem o murmúrio outrora doce
Do vento na água.
Tenho olhos de petróleo
Só vejo incêndios de fingir;
Só espero encontrar-me
Aqui,
E saber sorrir.
Chamo a criança do Inverno
de face nacarada.
Em ferida meu ócio espera
e o gritos
as preces
das mulheres na rua
rezando pelos mortos.
Outra criança surgindo em recordações
de um Outono
menos cruel
talvez,
que o fato negro
do primogénito.
A revolta e a fúria criando
num longo campo de desespero
onde nos observamos estendidos.
O horror agora será a espera, o silêncio das searas
conspirando.
Tínhamos absinto nas mãos esperando o cair da tarde num banco frio do teu jardim
E tínhamos promessas e sonhos cintilantes, centelhas de ilusão
e tínhamos trilhos de pedra sob os pés
e tínhamos uma voz grave sob o nosso mundo.
Fizemos a colheita cedo,
na altura em que a fome chegou, restavam as folhas secas no chão
e o vento, uivando e rindo, levando para longe as pedras do nosso castelo.
Escuto branco nas algas do deserto
longas asas gemem sem vontade
Sou rios de ouro que cobiçam
Planaltos de jejuns amestrados.
São fantasmas de verdes gritando
a voz dos ardinas presos na manhã
corcéis mastigando o sono fino
paredes dum quarto sem fim.
Acho que há felicidade nas latrinas da puberdade
na noite baixa das ruas
de cinderelas de sorrisos compridos.
Mas não aqui,
nunca neste pátio de adagas.
Aqui, nesta sede de ser o herói das histórias de barro contadas à lareira,
juntando as pedras soltas da calçada
e sorrindo,
numa ternura acobardada.
Fico-me pelo aguardar da madrugada,
solene,
pelo escutar dos gritos nos passos lentos
de quem foge sem pressa.
Um espanto ácido fluindo
enquanto as goteiras conduzem o mundo com luvas de cristal
e os olhos que te esquecem de sorrir
sob as calçadas férteis de assassinos enqueijados
longas florestas de lamurientos pastores de feições enegrecidas e terraços brancos e expressão de cal e escadas que só nos ensinam a cair
é esta a nossa invalidez? o nosso espanto acabrunhado e mediano?
as nossas vagas quebradas sem depósitos de alegria nem castelos sequer de areia
lembram-me os cúmulos-nimbos do tédio
massacrando tardes - acidentando as noites de colchões habitados por sanguessugas decalcadas das montras de jasmim dos jardins das centopeias do meu castelo de membrana
espinhos de rosas translúcidas com folhas de despedida e lábios demasiado secos de silêncio, demasiado devorados de dor para poderem ser lábios
multidões de insectos que não nós, num terminal vazio de fantasia, num céu de um azul carregado de tempestades métricas
Haverá sempre uma cadeira alvorando que ficará vazia.
Encontrei o meu anjo-súbito num Outono entristecido
Um anjo enegrecido num fundo azul
Um queixume vidrado nas folhas nuas das árvores,
Um anjo-carvão tão delicadamente exilado na mãe de todas as formas.
Agarro os fios soltos das matrizes da sobrevivência,
sob as cúpulas de uma cidade de telhados de pedra moribunda
e monumentos murchos e pátios sujos
e ruídos
de marcar compassos descoordenados
como os passos dos alienados que se embriagam nas ruas
Agarro-me ao silêncio incompleto,
escondido na transparência das tranças de um vento jovial que se faz escutar,
que do sorriso prateado
e de palavras de vestes reais
já não se conquistam mundos.
Continuo a observar pateticamente os ocasos
Tão virginalmente quanto me é possível
Compreendê-los. Escuto os violinos
Da frustração, orvalhando decididos.
Os gnomos saltitando nas suas
Jaquetas endiabradas,
Guardando vícios,
Esperando o fechar das cortinas,
O partir dos abutres medrosos.
As mãos de tão frágeis incandescem
Ao tentar agarrar o dia.
Miseravelmente despido, enfeitado de momentos
Fluorescentes, acabo por perder em
Movimentos esverdeados o chegar dos lémures.
Neste carreiro que agora alcanço
Me perderei, inevitavelmente. Porque ainda acredito
Na infância adormecida das viúvas.
.......................
Grito, de uma vertigem incandescente.
Invento novos dias interiores,
Aveludados, de
Incrustados céus e certezas
Metricamente perfeitas.
- anjos e demónios e pequenos insectos
e frascos de vidro em prateleiras de espanto
e jardins moribundos de exactidão.
E, no fundo, o que resta
São palavras rígidas
Numa melancolia demasiado fria,
O silêncio forçado dos cometas
- finjo mundos mistérios imensos.
Sei onde habitas,
ouço-te o respirar sossegado
do outro lado desta parede que me é fria
tenho estas lágrimas de cianeto sulcando-me a face
tenho esta adaga sonora mergulhando cruel
tenho-te palácio erguido
este jardim de pétalas secas
estes abetos de tristeza murchando
estas cotovias caindo funebremente dos ramos
Sei onde habitas,
onde te florescem os olhos
ardem-me os lábios de beijar esta parede,
de querer criar diamantes com lágrimas choram-me os dedos
tenho uma folha branca
e tinta seca numa soturna pena que envelhece senilmente
e um lençol de fina seda que aguarda a tua chegada
tenho a porta aberta, mas não dá para lado nenhum
não tem estradas que me levem até ti
só o som da tua voz surdamente respirando me chega
e o consolo do saber-te habitar, mesmo que não aqui.
Amanhã encontrar-te-ei sorrindo nos braços
de olhos solares e faces de pétalas
as unhas dóceis de âmbar polindo os cabelos
e as mãos cruzadas nas mãos e fechadas em harmonia
e no corpo todo serás aurora e ocaso
e tépido fim de tarde no jardim
e o teu júbilo será o meu despir incerto
na textura infantil da tua pele
encontrar-te-ei sorrindo
qual criança espreitando o amanhecer
de pés de pedestal num mundo menos digno
que enobreces
e olhar-te-ei
e verei, esse mel rubicundo coroado
e esse Ser que só em ti habita
e floresce
Amanhã encontrar-te-ei sorrindo nos braços
e terei pena que não sejam os meus…
Eu vi as folhas saboreando o vento
e exércitos de escárnio cavalgando sereias
vencendo pássaros de junco esquecidos nos ninhos,
eu vi a morte e um espasmo frio de alegria
as caravanas de sinceridade adormecidas na pradaria
segmentos de vermes apodrecendo nos pátios,
eu vi a ordem no caos numa janela inquieta.
Vi e pasmei de frieza, duma incompreensão fenomenal,
acabando alucinado aos pés das estátuas do jardim da praça.
Deixo que os olhos me caiam na vergonha
na infâmia,
na tristeza de saber
hoje tarde as chuvas secas de uma calçada apinhada de gente efémera, transparente de insectos rastejantes –
é como eu me sei sentir
sem voz, sem restos de habitantes, nem de gengibre, soluçantes
ou cálidas fissuras de desespero
tenho restos de gesso de moldar insuficiências cardíacas guardadas em janelas de barro
ali ao canto, onde tenho também os quadros desarmónicos da nossa felicidade sonâmbula
onde íamos tão verdes? tão céleres na nossa preguiça de Ser
de agranitar as réguas do pensamento com jumentos irados clamando um deus que os condene
vergonha só tenho esta
onde me caem os olhos como se fossem a folhas de uma estação cinzenta num tempo que se julga ácido mas não é.
Escuta as palavras que não te digo
e os olhos sinceros que não te mostro
escuta as gemas do jardim da insensatez que é a esperança quebrada da praia que escapa pelo horizonte de artérias que emanam da ilusão
e as estátuas
quebradas, mordidas pelas crisálidas do pasmo
pelas janelas fechando-se na cara de quem não tem janelas para escutar o amanhecer dos pássaros
escuta a versão triste da primavera enfeitada de folhas desiludidas
escuta-me quebrando fantasias debaixo dos teus pés marmóreos, das tuas sandálias de cotovelos.
Uma voz triste rastejava pela areia
chamando. Como um verme de lamento,
uma criatura sem sorrisos nem escombros líricos.
Num carreiro de grânulos de esperma súbito
numa floresta a fingir de rocha
e vagas medonhas de uma espécie lúcida de esmeraldas,
uma voz triste,
como esta que trago nas mãos,
rastejava.
Num dia, cheio de incenso, cheio de decotes agradáveis e esquinas de fingimento,
todo um universo de rectidão, erguidas as palavras, as métricas perfeitas dos lábios de carne fingida
a minha voz triste era a única que rastejava,
no carreiro de areia que a tua realeza espalhava pela calçada,
sempre submissa,
sempre um espinho sem rosa.