Nascido em 1976, tive a sorte de escapar à tangente à epidemia da Peste Negra: 626 anos mais cedo e era capaz de não ter sobrevivido para contar a estória. Mas como tal não aconteceu, em meados da década de 80 já eu andava a recitar alegremente a tabuada e a ver o “D'Artacão e os Três Moscãoteiros”. Estávamos no tempo em que ainda se podia ter gatos sem que fossem chacinados na estrada. Depois apareceu “O Justiceiro” e as coisas começaram a mudar.
Por volta dos 15 anos, sensivelmente na mesma altura que descobri a bebida, descobri também a guitarra. Foi paixão ao primeiro “baixa essa porcaria antes que leves uma vassourada na mona!”. Paixão talvez nem seja correcto, amor platónico será a expressão adequada: ela estava ali, eu também, mas não se passava nada. Aos poucos fui dominando, não a guitarra, mas todo e qualquer objecto que servisse de apoio ao consumo de bebida. Só com sua ajuda consegui superar a relação problemática com a guitarra. Para ocupar os tempos mortos entre os copos comecei a escrever, o que também não deu bom resultado, porque de cada vez que relia o que havia escrito voltava à bebida, o que por sua vez fazia com que escrevesse mais, e acho que já estão a ver onde isto ia dar. A lado nenhum, que é mais ou menos onde estou agora.
A dada altura, uma enorme falha no sistema permite-me o ingresso na Universidade do Algarve, tendo por aí deambulado algumas décadas, até conseguir encontrar o portão da saída e regressar às origens. Durante a minha estadia por terras algarvias, aprofundei os meus conhecimentos etílicos, tendo descoberto que bebidas esverdeadas não são boas para a saúde, a menos que seja altura da limpeza do organismo. Entre conhecimentos adquiridos e experiências mais ou menos conseguidas, passo a destacar alguns factos dignos de registo:
formulação da mais poderosa sangria jamais realizada;
diversas experiências químicas com bacalhau, feijão vermelho e piri-piri;
guerra dos 100 anos, versão lima versus linguística;
descoberta da Internet;
2 concertos de Jorge Palma (mas já recuperei, na medida do possível)
Actualmente faço parte dos SilkShadow , sou o gajo que compra a cerveja.